quarta-feira, 8 de abril de 2009

Melhor não ser amada do que ser mal-amada

Eram umas 5h da manhã quando eu acordei ouvindo alguns gritos. Uma mulher chorava compulsivamente enquanto gritava: “Eu não vou embora! Eu não vou embora!”.

A princípio consegui conter a curiosidade, mas 20 minutos depois a gritaria continuava e eu resolvi ver o que estava acontecendo: um casal estava brigando. Ele tentava tirá-la do carro, e quanto mais ele forçava, mais ela gritava.

Lembro de ter ficado horrorizada, não pelo escândalo, afinal, eu não tinha a menor ideia do que estava acontecendo, mas por conhecer intimamente aquela cena. Ele tentava acalmá-la dizendo que tudo iria ficar bem, que ela não precisava se preocupar e, logo, eles ligariam para a mãe dela. Ela, por sua vez, gritava ainda mais alto que não o queria mais. E foi nesse instante que eu a entendi.

Ela já tinha ciência de que não existia mais relação. Não havia amor, respeito ou qualquer outro tipo de afeto, no entanto, existia uma força maior dentro dela que a impedia de desistir, mesmo que ela quisesse. É como se ela pudesse “punir” o homem por tê-la feito abdicar do que era importante para ela, – amigos, costumes, comportamento, carreira - , mantendo o relacionamento.

Invariavelmente, a mulher é educada para casar e ter filhos. Ela pode ter uma carreira, ser bem-sucedida e independente, porém, a sociedade cobra uma família. Todas as vezes que ouvimos que “a mulher edifica a sua casa”, “a mulher segue o marido”, “a harmonia da casa é responsabilidade da mulher”, estão nos dizendo que o sucesso da relação é responsabilidade da mulher, e inconscientemente essas afirmações se tornam verdades e nos sentimos frustradas quando o relacionamento termina. A sensação é de que falhamos enquanto mulheres.

E já dizia o ditado “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Por isso, uma doce senhora sentiu-se comovida com a situação e resolver ajudar chamando a polícia. O rapaz ficou tão irritado que com um golpe brusco tentou tirar a ex-namorada a força do carro. Obviamente, ela resistiu. Na tentativa de afastá-lo, ela deu um tapa na cara dele e ele a encheu de porrada.


Ela sabe como mostrar ao marido quem é que manda...


Do alto da minha janela, eu só rezava para a polícia chegar logo. Os gritos de “eu não vou embora” foram substituídos por “Para! Para!”. Ela já perdia a voz quando ele entrou no carro e arrancou. E eu não preciso ser nenhuma vidente para saber que eles devem continuar juntos e infelizes.

Ela já não deve mais sorrir, e deve ter vergonha do espelho. Ele deve acreditar que foi um ato isolado causado pela irritação que ELA o fez passar, provavelmente, isso não se repetirá. Eu não moro na periferia. E eles não são baixa renda.

Por mais absurdo que seja, isso é mais comum do que se imagina. A violência é fruto de uma geração que “aprendeu a não levar desaforo para casa”. Acreditamos que não estamos sendo vítimas de agressores quando somos empurradas em uma discussão. Somos xingadas e não percebemos o impacto que essa violência causa à nossa integridade física e mental. Tudo porque estamos acostumados com a banalidade da violência.

Fico enjoada quando ouço algum desgraçado dizendo que mulher gosta de apanhar. Realmente, as mulheres que “apanham” - fisicamente ou verbalmente -, são tão destruídas moralmente que perdem o amor-próprio, se condenam por terem perdido o controle da situação e, verdadeiramente, se recusam a acreditar que estão sendo violentadas. Para elas, sempre é um ato isolado. Sempre é uma reação à bebida. Ela é sempre CULPADA por tê-lo irritado. E nem adianta tentar nos avisar: não estamos cegas de paixão, estamos doentes.

Briguinhas bobas que culminam em ofensas e terminam na cama, aparentemente, temperam a relação. APARENTEMENTE. Preste atenção ao conteúdo dessas ofensas, eu mesma levei alguns anos para entender que “você é a pior coisa que já me aconteceu”, “larga de ser burra”, “você é um demônio dos infernos”, “aonde eu estava com a cabeça quando pensei em me casar com você?”, “some da minha vida” (...) eram pequenas doses de veneno.

Então, se você se identifica com qualquer situação semelhante, procure ajuda. Pode ser um amigo, um familiar, um psicólogo, um desconhecido. Não deixe um relacionamento acabar em ressentimentos, mágoas... raiva. Compreenda que se chegou a esse ponto, ambos precisam de ajuda para se recomporem, resgatarem o amor-próprio e, principalmente, redescobrir que a felicidade não se encontra no outro, mas em si mesmo. O importante é você estar ciente que o amor desperta o melhor que existe em você, e não o contrário.

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