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terça-feira, 23 de março de 2010

Se fosse ela...



Se você soubesse que ela aceitaria o seu convite, você ligaria?
Aposto que ligaria se tivesse plena certeza que esse convite terminaria com um dos melhores beijos que já provou até hoje.
Mas, se você soubesse que ainda iria querer sair com ela nos próximos dias, você ligaria?
E se esses dias virassem semanas, meses, anos. Como você se sentiria?
Você ainda gostaria de ter ligado se soubesse que jamais iria querer ouvir outra voz antes de dormir?
Se soubesse que sua respiração ficaria falha sempre que a ouvisse dizer “precisamos conversar”?
Será que você teria tido coragem de ligar se soubesse que ela era tão divertida? Que não havia sorriso mais lindo do mundo do que aquele após um "eu te amo"?
Você não teria ido em frente. Garanto!
Garanto que teria resistido bravamente se soubesse que ela poderia ser a última mulher da sua vida. Aquela por quem você seria capaz de sofrer todas as dores do mundo só para que ela não derramasse uma única lágrima.
Não... Você não ligaria.
Não se importar com o lugar que estivesse desde que fosse com ela? Inimaginável!
Você ligaria se soubesse que ela diria sim? Não só para aquele beijo, mas para o resto de suas vidas?
Definitivamente, talvez você quisesse, mas não ligaria.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Escolhendo uma profissão


Eu tinha 17 anos, e uma decisão que influenciaria toda minha vida: “O que eu vou ser quando eu crescer?”

O teste vocacional me incentivava a apostar nas Ciências Humanas. O meu pai, nas Biomédicas. E eu só tinha a certeza de não queria nada relacionado a Exatas. Lembro que durante todo aquele ano, eu optava por um novo curso a cada 3 meses: de janeiro a março, eu quis ser Psicóloga; de abril a junho, meu sonho era a Fonoaudiologia; de julho a setembro, fiquei apaixonada pela Arquitetura; e quando finalmente chegou a época das inscrições, optei pela Publicidade.

Eu fazia questão de discutir com meus pais os prós e contras de cada profissão. Não esperava pela aprovação deles, mas queria que tivessem orgulho da minha escolha e, claro, me orientassem para que eu fosse capaz de fazer a melhor.

Rá! Você acreditou, né?! Mas, sinto desapontar, eu até era boazinha, mas nunca fui exemplo de nada. Claro que eu não ouvi meus pais! Que aborrecente faria isso? Dãããããããããããããã!

Meu pai ainda “vivia” na época que para ser considerado “bem-sucedido” era preciso um Dr. ou Drª. antecedendo o seu nome em um cartão de visitas. Aquela visão antiquada me irritava, ainda mais quando ele ousava me comparar com minha prima que havia escolhido Odontologia, provocando discussões calorosas sobre minha opção e, obviamente, reforçando-a ainda mais.


A chatice dos adultos... Ninguém aguenta tanto Nhé Nhé Nhé!

Na sua última tentativa de me fazer investir na carreira de Publicitária, meu pai veio com o argumento de que a profissão estava bastante desvalorizada no meu estado, os salários eram baixos e a expectativa, muito pouco promissora. Nesse momento, eu enchi os olhos de lágrimas e disse:

- Assim como existem Publicitários que não ganham uma pequena fortuna mensalmente, existem médicos que mal conseguem sobreviver aos plantões. Existem advogados vendendo cachorro-quente e fisioterapeutas aceitando uma remuneração de R$500,00/mês para terem o direito de exercer sua profissão. Eu acredito que por mais saturado que o mercado esteja, sempre haverá espaço para os bons, quem dirá, para os melhores. E eu só serei boa no que faço se estiver feliz ao fazer.

Venci pelo cansaço. Fiz minha inscrição no curso de Comunicação Social em uma famosa faculdade do meu estado, fui aprovada no vestibular, estudei com afinco, estagiei e consegui um contrato quando ainda estava no 5˚ Período. Era o primeiro passo para um longo e glorioso futuro.

Três anos se passaram. Sentados à mesa de café da manhã, em uma das tradicionais reuniões na casa da minha avó, chegamos a polêmica discussão sobre carreiras. O foco, agora, eram as decisões profissionais que a 2˚ geração da família logo teriam que enfrentar. Só que, desta vez, havia exemplos práticos para oferecer. E quem fez as honras foi o meu pai:

- Eu disse para Nanynha ser doutora. Olha aí, as três se formaram no mesmo ano: a Popo é dentista, já está com consultório montado e carro do ano. A Rose é farmacêutica, já sustenta a casa e ainda paga a escola da irmã. E Nanynha, é o quê?

- Uai, Pai, eu sou feliz!


terça-feira, 6 de outubro de 2009

4h52



4h52. Esse é o horário que me atormenta. Nas últimas duas semanas, exatamente às 4h52 eu acordo, sem qualquer razão aparente. Bom, no sábado foi às 4h56, mas talvez por ser sábado eu tivesse direito a 4 minutos a mais de sono.

Isso começou há duas semanas, quarta-feira, às 4h52 ele me ligou dizendo que queria me ver. Claro, devia estar bêbado, mas esse era apenas um detalhe, aquele que o encorajava. Dizia que estava se esforçando para não ligar, começou a pedir desculpas. Sua voz era ansiosa, havia muita expectativa, mas talvez fosse um pouco tarde para voltar atrás. Era tarde.

Tentei me concentrar em tudo que estava ouvindo, mas era impossível. Ele falava rápido demais, e por vezes remeteu a uma conversa que tivemos 3 dias antes. Eu havia acabado de acordar e ainda não sabia a importância daquela conversa, às 4h52.

- Fala mais devagar porque eu não estou entendendo.
- Você vai me dizer “acredita!”, aí eu vou dizer que não quero acreditar. E eu vou ter que ir embora, mas tudo bem, eu não tenho que entender, não é?!
- Calma, me diz o que você quer.
- Esquece, desculpa!

Quando se diz “esquece” é porque há algo para não se esquecer. Levantei da cama, acendi a luz na esperança de que aquilo clareasse um pouco a minha memória. Até aquele momento, eu não imaginava que tínhamos algum problema. Sim, nós não concordávamos em tudo, mas aquela discussão sobre “bar, boteco e copo sujo” não se conjectura exatamente como um problema.

- Eu também quero te ver, você sabe disso. Não pode ser amanhã?
- Pode! É que eu vi o seu último torpedo e fiquei com tanta vontade de falar com você, mas eu sei que não deveria, me desculpa. Eu só não queria que você tivesse que trabalhar amanhã, pra eu poder passar o dia inteiro com você...

São 5h15 e até hoje eu não consigo pegar no sono antes do sol nascer. E, talvez, ainda leve algum tempo para compreender que às 4h52 da manhã de uma quarta-feira, eu ouvi mais do que deveria. E por saber tanto, hoje eu não tenho quase nada...


terça-feira, 16 de junho de 2009

Lúcida madrugada

Acordei de ressaca. Olhos fundos, rosto amassado, uma dor de cabeça insuportável e o estômago um pouco embrulhado. Foi uma noite daquelas. O despertador toca. Argh! Parece estourar os meus tímpanos. Engraçado, nunca percebi o quanto ele soava alto.

Hoje é sexta-feira. Dia perfeito para uma ressaca. E esta é a pior que eu já tive. Juro! Pior do que se eu tivesse passado a noite inteira agarrada a um litro de Vodka. A minha ressaca aconteceu de um devaneio. Das minhas memórias. De algo que eu vivi há muitos anos. Que eu já resolvi, mas ainda é recente. A minha ressaca é moral!

Cheguei em casa disposta a resolver a minha vida. Eu já estava com tudo encaminhado. Já tinha namorado, já tinha um emprego, já tinha o meu apartamento. Não fazia o menor sentido continuar a pensar se o que ele me dissera há um ano era verdade. Após 7 anos, aquele homem me dizia que finalmente tinha acordado para a vida e que descobriu me amar profundamente. Quem ele pensa que é para aparecer assim, de repente, depois de tantos anos tentando recuperar o meu coração? Que abusado! Como ousa pensar que seria fácil?

Bom, mocinho, tenho uma surpresinha para você. Depois dessa declaração, eu vou ter que pensar. E muito. Talvez hoje, um ano depois, eu continue pensando. Ah, o que é isso? Eu tenho o direito. Nas outras duas vezes, você esteve com o controle da situação. Agora, não. Agora é a minha vez. Eu dou as cartas. Eu decido o que será do meu e do seu destino.

A pergunta que mais me assusta é: Então, por que eu não faço isso e acabo de vez com essa agonia? 

Talvez, ele tenha mudado. Afinal, eu sempre me dediquei a ele. À sua felicidade. Mesmo de longe. Talvez ele tenha percebido... Que eu sou a pessoa mais ingênua do mundo, para não dizer burra. É claro que apareceria agora que estou feliz. Que melhor momento para ele mostrar que continua sendo o mesmo verme de outras épocas?

Eu ainda consigo sentir a dor no peito. Lateja. Estou sufocada. Acabaram-se as lágrimas. Dói. Há esperança dele me dizer que é tudo um engano, apenas um desentendimento. Mas não... Quem sabe daqui a três anos? Em meio a uma risada cínica, é tudo que eu ouço. Ele acaba de pisar no último pedaço da minha dignidade.

Olho no relógio e o ponteiro marcam 3h. Eu já deveria estar dormindo há pelo menos 4 horas. Por que o sono não vem? Luzes apagadas, o barulhinho do ar condicionado e as cobertas aquecem o meu corpo. O travesseiro parece me incomodar. Tem algo de errado nele porque eu não encontro uma posição. Viro de um lado e de outro, mas meus pensamentos estão em sua potência máxima. Já fugiram do meu controle e, a essa altura, estou muito irritada por não conseguir apagar. Será que se eu ligar a televisão irá funcionar? Talvez o barulho confunda os meus pensamentos e eu consiga esquecer a sua existência, momentaneamente.

Já decidi! Não existe nada a ser dito. Deixarei que ele perceba o quanto é tarde para tudo isso. Eu tenho mais o que fazer. Mais do que esperar ele me envolver com suas falsas promessas. Minha vida está completa e me recuso a mudá-la agora. São 5h, amanhã eu trabalho. Boa noite, hora de dormir. Já tinha perdido muito tempo com essa história. Foi a minha última ressaca por sua causa.


sexta-feira, 12 de junho de 2009

Coisas do amor


- Oi, você sumiu! Está fugindo de mim?
- Resolvi me afastar.
- Por quê? Alguma coisa que eu disse?
- Não. Acho que assim você vai perceber que sou eu o seu verdadeiro amor.

Silêncio.

Depois disso, o que mais há para falar? 

- Olha, me desculpa, mas eu não vou cair nessa história de novo!

Apesar de relutar em ouvir isso, as palavras ecoam na minha cabeça. Inacreditavelmente, parece que o meu cérebro sumiu e, com ele, todo o conjunto de ossos que o protegem. Agora só existe um grande oco. E as palavras ecoam... 1, 2, 15, 50, 10 mil vezes. Parece não encontrarem um limite.

Acabo me desconcentrando do trabalho. Eu não quero mais pensar nisso, mas é quase involuntário. Eu me esforço. Acaba a conversa. Será que eu poderia ter dito algo? Não. Qualquer coisa que dissesse pioraria a situação.

Ele não precisa saber do quanto suas palavras me atormentam. Na verdade, sempre me atormentaram, mas ele também nunca soube disso. 

- Eu tenho certeza do meu amor por você desde a primeira vez que te vi.

Apenas sussurro algo como “Faça o que quiser”. Um certo desdém soa dos meus lábios, apesar do meu coração bater mais forte do que a bateria de escola de samba. Aparentemente, estou calma. De alguma forma, consigo esconder o sangue que deixa as minhas bochechas rosadas. 

Você realmente não precisa saber do que eu sinto. Não cuidaria do meu coração como ele merece. Algum dia suas palavras não terão mais efeito sobre mim. Algum dia deixarei de pensar em você. Algum dia. Hoje ainda não. Enquanto espero, continuo escondendo as palpitações do meu coração. É melhor que você encontre o desprezo em minhas palavras. 

Mas a sua falta permanece. 

- Te amo, porra.
- Eu também.


terça-feira, 26 de maio de 2009

O Plano

O sol já se despedia dando início a noite de domingo. Passou o dia inteiro olhando para o celular, pensando no que dizer se ela finalmente conseguisse coragem para ligar.

- Oi, então, tava pensando se a gente não poderia ir comer uma pizza. O que acha?

Achou direto demais.

- Oi, quanto tempo! Tá fazendo o quê? Se não tiver nada melhor para fazer, a gente poderia arrumar alguma coisa.

A sua cara de pau, por exemplo.

- E ae, filhote? Sumiu... Gente, que saudades de você. Então, liguei para saber se você não quer ir a pizzaria... Combinamos há tanto tempo, pensei que hoje poderia ser um bom dia...

Para você deixar de ser tão oferecida, quem sabe?!

Por fim, decidiu que seria mais um “Oi, como você está?” e, se por sorte, acabasse em um convite, ótimo. Caso contrário, abandonaria essa história, e dessa vez, falava sério.

Respirou fundo, sentiu seu coração disparar e resolveu comer algo antes. Sabe, só para não parecer tão ansiosa. Meia hora depois, voltou. Mais uma vez, respirou fundo, sentiu seu coração disparar, e antes que inventasse mais alguma desculpa, discou. Inutilmente, tinha apagado da memória do telefone. 

Quando caiu na caixa postal, pensou na sorte que teve. Não parecia mesmo ser uma boa idéia. No dia anterior, havia acendido uma vela e rezado para seus anjos. Queria um pouco mais de serenidade, aliás, ansiava por paciência. Ultimamente, estava enlouquecendo de tanto procurar respostas para perguntas que não precisava de respostas. Ela já sabia o que esperar de todas as perguntas que fazia.

Decidiu dar uma corrida. Se não aliviasse o estresse, pelo menos ajudaria ela em algumas calorias a menos. Mas, ela nem chegou a porta. No meio do caminho, caiu no sofá e ficou ali por alguns minutos, pensando em nada, foi despertada pelo toque do telefone. Seu coração disparou. Será que havia caído em segunda chamada? Será que ele tinha a porcaria do avisa aquele torpedo maldito que sempre avisa quando alguém liga? Era muita falta de sorte!

E o destino sempre brincava com ela: “Número Restrito”. E agora? Atender? Atendeu:

- Fala cachorra!
- Ah, é você?
- Tava esperando alguém?
- Com certeza, não você.
- Credo! É assim que você recebe seu macho? Se arruma que eu vou te levar a Igreja.
- Não quero ir a Igreja.
- Eu não perguntei se você quer ir, estou dizendo que vou te levar. Em 10 minutos, chego aí. Beijo.

Desligou, Cretino! Ele sempre fazia isso. Era seu melhor amigo, sempre muito disponível. Se arrumou com gosto, estava aliviada por ser ele. Gostava da sua companhia e, talvez, quisesse que fosse ele. Ele sempre a fazia se sentir a mulher mais querida do mundo, gostava de satisfazer suas vontades, colocava-a em um pedestal. Por vezes, ela chegou a pensar que talvez não fosse só amizade, mas um relacionamento estava fora de cogitação. A menos que isso fosse um plano de Deus. Será que isso é um plano DELE? Ai, JesusCristinho, não!

Fazia todo o sentido: ele sempre ligava para ela, vivia arrumando desculpas para tocá-la, fazia questão de pagar as contas, sempre a elogiava, tinha ciúmes dos seus namoradinhos, queria que ela tivesse ciúmes das suas namoradinhas, insistia em levá-la para todos os lugares... Ah, não! Ela não planejou ter um caso com seu melhor amigo. Isso poderia colocar tudo a perder com o ... Ah, é, não existe outro. Bom, mas definitivamente, isso era uma tragédia e seria melhor esclarecer tudo antes que tomasse grandes proporções.

- Precisava se arrumar assim?
- Desculpe, eu também não planejei nascer linda, mas isso também faz parte do plano de Deus.
- Hahahahahahahaha


Não houve Missa aquele dia. Aliás, houve, bem mais cedo que o costume. Agora, estava claro, ela tinha certeza que aquilo era um sinal e não estava gostando nada do rumo que as coisas estavam tomando. Ela tinha que tomar uma providencia e...

- Ai, meu Deus, você aqui?
- Oi! Viu assombração?
- Rá! Muito engraçado. Eu só nunca imaginei que o veria aqui.
- Quanto tempo, não é?
- Pois é... 
- Sabe, a gente poderia sair qualquer dia desses. Qual é o seu telefone? Acho que não o tenho mais.
- Ah, é o seu ao contrário, lembra?
- Hahahahahaha... Claro! Então, quando eu posso te ligar?
- Acho que na quarta seria um bom dia.
- Puxa! Você ainda está mais linda do que a última vez que te vi...
- Aham... Sei sei sei... Então, a gente se fala, tchau!

(...)

- Aonde você estava?
- Hã, eu?! Estava dando prosseguimento aos planos de Deus!
- Você é uma cachorra.
- E você, é um anjo!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Pequenos Grandes Erros



Para ler ouvindo:
With or Whitout you - U2




Fico pensando se naquele dia a internet tivesse caído, como era costume.
Imagino que eu não conseguiria ler os recados alheios. Recados que eu não entendia o contexto.
Se a internet tivesse caído, eu jamais teria tentado interpretar o sentimento impresso em cinco palavras.

Apenas cinco palavras foram o suficiente para criar uma história inteira na minha cabeça.
Cinco palavras e eu imaginei ter argumentos suficientes para ser arrogante, debochada, orgulhosa... mimada. Era uma frase tão pequena, tão insignificante, e tão poderosa!

Se eu tivesse atendido a sua ligação com o mesmo entusiasmo que eu esperava por você, como será que estaríamos hoje?
Imagino que teríamos tido mais tempo. Nem que fosse para descobrir que não valeu o tempo que tivemos.
Se eu tivesse entendido mais cedo que eu não havia entendido, eu jamais teria perdido tanto tempo me explicando.

Fico pensando se eu, simplesmente, tivesse dito sim a pelo menos um dos três convites que você me fez aquele dia.
Eu não sei se teria sido diferente, mas eu sei que teria sido com você.
Se eu não tivesse tido tanta pressa para encontrá-lo, talvez não teria passado tão depressa. E eu não tive nem a chance de beijá-lo novamente... Deus, como eu quis beijá-lo!

Se hoje, fosse há um ano, eu faria diferente.
Imagino como seria se eu tivesse a oportunidade de consertar um erro. Nem que fosse só pela possibilidade de não contar tantos “se”...

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Da Dor

Queria rasgar-se inteira.
Já podia sentir o sangue escorrendo pelo seu corpo, manchando o piso branco que acabara de ser limpo.

Estava cansada da futilidade das pessoas. Era tanta hipocrisia que tinha vontade de gritar a todos: vão à merda e me deixem em paz! Sentia que apesar da sua paciência se esgotar, não podia simplesmente ser ríspida. Nem todos tinham a capacidade de compreender a verdade. Preferiam se esconder sob o rótulo de vítimas, como se o mundo conspirasse contra elas. Era tão tedioso ouvir sempre as mesmas lamentações.

Por algumas vezes, esboçou seu egoísmo e, por incrível que pareça, não houve reação. Pudera! Estavam presos a uma muralha de reclamações e fingiam excitação para continuarem tendo pena de si mesmos. Olhava para todos com desdém, mas não importava. Estavam cegos, perdidos na própria desgraça, reforçavam suas frustrações alimentando o desespero que fora enfrentar seu passado podre.

Para que ficar questionando tudo, o tempo todo, como se não fossem responsáveis por suas escolhas? Seria tão difícil, assim, aceitar que nem sempre as coisas acontecem como esperamos? Seria tão ruim não ter uma vida sempre cor de rosa?

Sentia um certo prazer no negro que, às vezes, esboçava em sua rotina. A aflição jamais viera revestida de Luz, e nessas horas, tentava apenas ouvir o seu coração. Desejava ardentemente que as lágrimas corressem pelo seu rosto, como se pudessem lavar a alma, mas dificilmente conseguia. A frieza dos seus sentimentos não deixava a menor dúvida: estava incrédula.

Ninguém ligava para os seus sentimentos, desde que estivesse bem para dizer aos outros como deveriam se sentir. E, assim, foi até o dia em que disse o que ninguém queria ouvir. Compreendeu, então, que não queriam ser aconselhados, queriam ser consolados. Pobres infelizes!

É óbvio que também não gostava da dor, porém tinha consciência de que ela nada mais é do que um pedido de atenção. É o seu corpo, o seu espírito, se comunicando com você. Deixe a ferida exposta e ela se putrificará. Assim, também acontece com a alma.

Estava impotente. Tinha tanta vontade de ajudar que mal pode perceber que estavam usurpando suas forças. Tarde demais, se recusou a compartilhar daquela mediocridade. Estava cansada desse mundo. Para ela, já não havia mais esperança.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Mode off


Dizia ela que não tinha do que se queixar. Mas, por mais estranho que fosse, vivia numa profunda insatisfação. O que, afinal, a incomodava tanto ela não sabia explicar, e sendo assim, não tinha a menor ideia do que fazer para calar sua angustia.

Então, decidiu por um dia, fazer tudo o que não faria. Imaginava quantas coisas poderia descobrir apenas testando novas possibilidades. Ficaria exausta só de pensar. Queria mudar o mundo, apenas mudando a forma de enxergá-lo.

Começou desistindo da dieta. E daí se ganhasse alguns quilos? Isso a faria voltar para a academia. Fazia tempo que não praticava exercícios físicos, então, talvez perder a forma não fosse assim tão ruim. Ficava imaginando uma rotina exaustiva em que ela, logo após sair do trabalho, corria para não perder o horário da ginástica. Se lembrou que detestava ginástica, e pensou: ótimo! Seria obrigada a conhecer uma outra modalidade.

Sua primeira iniciativa já dera uma grande perspectiva do que poderia se transformar a sua vida. Isso fez com que se empolgasse ainda mais. Voltou-se para o quarto. Enquanto revirava seu guarda-roupa procurando algo que não vestia há séculos, deu uma rápida espiada no espelho. Tentou recordar quando fora a última vez que experimentara um novo corte de cabelo e, antes que pudesse se dar conta, já estava no salão, aguardando impacientemente por sua vez.

Ao chegar em casa, achou que deveria sair. E não saiu. Resolveu fazer um bolo. Nossa, há quanto tempo não utilizava um forno e, agora, veja só, chegou a queimar a língua ao provar uma fatia do bolo que não era sua especialidade.

Ficou orgulhosa por ainda saber bater umas claras em neve. Se preocupava tanto com o trabalho que não perdia muito tempo com os afazeres domésticos. Lembrou que havia algumas roupas sujas que deveria lavar, mas antes que pudesse resmungar, obrigou-se a continuar deitada no sofá. Veria um filme.

Não estava acostumada a deixar as coisas acontecerem. Sempre controlava tudo, desde a hora em que acordava até, novamente, a hora em que voltava para a cama. Às vezes, se achava um tanto meticulosa, nem por isso ela se permitia relaxar. Ficava louca só de pensar que algo poderia acontecer, algo que ela realmente não tivesse esperando. Achava que o motivo de haver tantas pessoas frustradas era porque elas simplesmente criavam expectativas demais.

Só que aquele dia era especial. Se permitiu abrir espaço para o casual e estava confortável naquela situação. Jamais imaginou que houvesse tanto prazer em não ter uma rotina. Enquanto tentava não dormir assistindo ao filme, ouviu seu telefone tocar. Não atendeu. Era o que faria, então, pensou o quanto maravilhoso deveria ser receber uma ligação quando não se espera. Talvez, seja alguém apenas tentando tirá-la do seu sossego. Não atenda!, pensou ela. Dormiu.

Algumas horas depois, viu uma chamada perdida. Era um convite para um noite entre amigos. Já estava se preparando para voltar a cama, mas resolveu ir. Diferente das outras vezes, não fez nenhuma grande produção. Queria apenas sair despretensiosamente. E foi. Já estava ali há pouco mais de 1 hora quando recebeu outra ligação, outro convite, outro ensaio do acaso.

Não demorou muito para se despedir e saiu correndo para não deixar seus amigos esperando. Não estava vestida para a ocasião, mas quem se importava? Entrou. E sem ao menos pensar, olhou para trás. Era a vez do acaso brincar com ela.

De repente, ela compreendeu que tudo sempre estará ao seu alcance. Basta estar distraído o suficiente para não tentar controlar suas escolhas. Por ora, ela não precisava aprender mais nada. Virou-se e voltou a dançar.


segunda-feira, 27 de abril de 2009

Da compreensão

Para Renata B.


Sabe eu quis mesmo acreditar que só dependia de mim. E, por muito tempo, eu tomei decisões convicta de que eu precisava dar o primeiro passo. Não é engraçado como a determinação, às vezes, pode nos deixar cegos? Me precipitei, mas talvez não soubesse disso se não tivesse arriscado.

Eu sei que andei afastada, mas foi importante para que eu pensasse melhor, ou, para que eu deixasse tanto de pensar. Sei lá! Seja como for, eu não queria mais ouvir as vozes do mundo, queria apenas escutar a minha voz, aquela que sempre implora por atenção, mas que eu vivo ignorando. E não é que me assustei quando percebi que eu tinha todas as respostas? Todas aquelas que eu sempre esperei que você me desse, todas aquelas que eu acreditei que estavam guardadas com você estavam o tempo todo ao meu alcance.

Sinto muito tê-lo feito esperar, mas eu receio que você já não possa me oferecer nada além de vagas promessas. Não se preocupe, a culpa não é sua. Nem minha. Nem de ninguém. Você fez o que pode, e eu realmente lamento que não seja o suficiente. Eu também quis acreditar que seria você o homem da minha vida.

Por muito tempo, eu pedi a Deus que me concedesse a felicidade. Supliquei por mudanças. Fiz promessas para que eu tivesse ao meu lado alguém que pudesse ser digno do meu amor. O que eu não compreendia é que se você estava sempre lá, como não seria você a escolha certa?

Até que eu percebi que minhas preces estavam sendo atendidas. Por diversas vezes, chegamos juntos a conclusão de que somos mais felizes separados. E sempre que chegavam as oportunidades, simplesmente eu esquecia do que havia pedido. Às vezes, é preferível acreditar em milagres para não ter que acreditar no livre-arbítrio.

Por favor, não interprete como se eu estivesse desistindo. Eu lutei com todas as minhas forças, fui contra a minha vontade para ser condescendente com as suas expectativas, só que o verdadeiro guerreiro sabe quando a batalha está perdida. Eu não desisti de você, apenas aceitei o fato de que não posso tê-lo.

Neste momento, eu me obrigo a fazer a sua última vontade. Sim, direi a você que o amo e não o esquecerei, apenas isso. Guarde esse sentimento e dê a alguém que não precise tanto do seu afeto. Por hora, eu ficarei bem.



PS.: Amiga, fica bem! =)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Os beijos que eu nunca beijei

Homenagem ao Dia do Beijo (13/04), oficialmente comemorado nos fins de semana!


"Seja eu, Seja eu,
Deixa que eu seja eu...
Então, deita e aceita eu...
Beija eu,
Beija eu,
Beija eu, me beija...
E deixa o que seja ser...
Deixa...
Eu me deixo...
Anoiteça e Amanheça..."


De tudo que tenho querido, você é a única coisa que eu não gostaria de querer.
Querer você torna mais distante a possibilidade de tê-lo.
Querer você torna mais angustiante a espera pela sua chegada.

Se toda vez que eu o sentisse tão perto fosse um presságio da minha intuição, então, eu já não seria mais sufocada pela saudade. Às vezes, o meu desejo é tão forte que quase posso tocá-lo. Sou capaz de ouvir a sua voz, dizendo: Acorde! Isso é apenas um sonho... Então, relutante, volto a realidade.


Difícil não é conviver com a expectativa, difícil é viver com a falta dela. Se ao menos você não tivesse acabado com as todas minhas ilusões... Com o último pedaço de esperança. Ah, o chocolate amargo que adoçava a minha vida!
Difícil não é reparar que a vida continua, difícil é querer continuá-la mesmo com a sua ausência. É pior quando nos damos conta que, então, você fará um outro alguém feliz.

Todas as manhãs, eu acordo com o seu sorriso. Nos meus sonhos, você me beija com tamanha gentileza e antes mesmo de abrir os olhos, eu o vejo sorrindo para mim. É para você o meu primeiro pensamento, é tentando adivinhar o sabor dos seus lábios que dedico os primeiros minutos do meu dia... Serão eles tão doce quanto o seu olhar? Ou terão o fogo do desejo? Ao menos, se um beijo fosse capaz de acabar o encanto...

De tudo que tenho pedido, é a sua atenção que mais me distrai.
De tudo que tenho pedido, é a sua presença que mais me incomoda porque pela metade já não serve.
De tudo que tenho pedido, é o seu beijo o mais querido de todos os meus pedidos...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Tudo que eu não quero dizer

Eu queria achar as palavras certas para te convencer. Talvez, achando-as, eu me convenceria.

Não estou mais disposta a fingir que você não mexe comigo. Cansei de esconder as minhas mãos trêmulas ao menor sinal da sua presença.

Seria tão patético, assim, querer o seu sorriso iluminando as minhas noites? Ah, quem poderia me condenar por querer a liberdade de um coração aprisionado? Se, ao menos, eu pudesse encontrar essa paz que sinto ao seu lado em outros lençóis...

Não entendo porque temos sempre que complicar tudo. Se os corpos se desejam, qual a razão de resistir à paixão? Não quero você 24 horas por dia, quero, sim, você por completo apenas algumas horas da semana.

Quero você sem a impaciência do que fazer no momento seguinte, sem frases feitas e gestos articulados. Quero você com a espontaneidade do seu jeito desengonçado, o olhar encabulado...

Quero as divergências de uma opinião confusa, quero as bobeiras de uma conversa à toa, quero as palavras ditas nas entrelinhas e elogios despreparados... Se ao menos você soubesse que o que eu quero é tão simples...

Eu não espero nada de você. Entenda: quero o inesperado, o surpreendente! Quero que você venha, me pegue e me leve para onde você bem entender, sem esperar minha aprovação, sem pedir meu consentimento...

Não se preocupe, eu não vou resistir. Não vou questionar... E se eu fingir estar emburrada, me desarme com o seu charme, com palavras sem-sentido que irão me arrancar um sorriso.

Por favor, me invada! Se faça presente mesmo na ausência... Não me deixe pensar, respirar. Por favor, experimente! Eu também tenho medo, receio, mas eu quero (e posso) perder o juízo com você.

Eu só queria me convencer de que existem outros. Outros que poderiam me fazer ainda mais feliz, ainda mais completa. Quem sabe, se eu me convencer a encontrá-los, eu deixe de te querer tanto e, finalmente, consiga ver sua alegria ao me olhar, vê-lo solto pra fazer e dizer o que bem entender.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Pontuando as verdades

O relógio marcava 3 horas da manhã. Ela dormia profundamente quando ouviu o telefone tocar. Acordou assustada e mal conseguiu ver o nome que acusava na bina. Ainda sonolenta, com a voz rouca, atendeu a ligação. Do outro lado, uma voz já conhecida, simplesmente dizia:

Preciso te ver!
Que horas são?
Quase 3horas. Preciso te ver, agora!
Você é louco?! Amanhã conversamos.
Amanhã não! Precisa ser agora. Estou em frente ao seu prédio, abre o portão para podermos conversar.

Desde o último encontro, há 3 meses, ela não tinha mais notícias dele. Durante 11 anos foram amigos confidentes, mas agora pareciam dois estranhos. Ela não reconhecia seus impulsos, sua arrogância, suas palavras desconexas. Ele não reconhecia suas palavras duras, indiferentes, sua falta de credulidade.

Na última vez que estiveram juntos, percebeu que ele a olhava longamente, como se tentasse adivinhar seus pensamentos. Enquanto ela falava do trabalho, ele afagava seus cabelos, às vezes, recostava suas mãos em seus braços, como se quisesse protegê-la. Mesmo assim, ela o sentia distante. Tentava falar sobre banalidades, mas ele não conseguia acompanhar o raciocínio. Estava longe.


O que está acontecendo com você? O que é tão importante que não dá para ser outra hora?
Não é assunto para ser ao telefone. Me deixa subir, por favor.

Ela não conseguia ignorá-o. Apesar de confusa, era seu amigo quem estava ali, eram 11 anos de amizade sendo colocados à prova. Sabia que para tamanha euforia, fosse qual fosse o assunto, estava sufocando-o.


Então, o que é tão urgente?
Preciso de um banho!
Você não fez essa algazarra toda por um banho. E antes que eu perca o que resta da minha paciência, acho melhor você explicar o que está acontecendo.
Você só pode ser uma cega para não perceber o que acontece.
Ou talvez, eu prefira não ver para não ter que fazer uma escolha.

Há tempos ela evitava esse confronto. Talvez não tivesse certeza, mas sabia exatamente que as coisas já não eram como antes. Ela não sabe bem como as coisas evoluíram, mas sabia que ao se dar conta, não poderia faltar com a verdade. Ela tremia. Estava tensa. Suas respostas serviam como refúgio, buscava defender-se de seus próprios sentimentos.

Eu quero você!
Você não sabe o que está falando.
Nunca estive tão certo. Tudo que eu quero, está na minha frente! Fui um tolo de fugir e tentar me esconder disso, mas agora eu estou aqui, e você é a única pessoa que pode colocar um fim nessa agonia.
Vá embora, por favor!
Não! Não antes de você me dar uma chance.
Somos amigos! Você sabe bem disso. Não dá para transformar carinho em paixão, pelo menos, não dá noite para o dia. Ah, por favor, não faça isso. Vá embora!,

Eu quero estar ao seu lado. Não é uma questão de corpos, mas de sentimentos. Quero sentir o seu cheiro, ouvir a sua voz, conversar sobre o seu dia. Quero acariciar seus cabelos, sentir a suavidade da sua pele, envolvê-la nos meus braços e fazê-la dormir.

Estava diante da cena mais encantadora da sua vida, e da mais terrível. Sabia que não o correspondia. Não negava a química que por tantas vezes a fez perder o chão, mas sabia que era apenas uma atração gerada pela intimidade que os unia. A verdade explodia de sua boca, e antes mesmo que se desse conta, viu seus olhos encherem d'água.

Oh, não! Por Deus, vá embora!
Você tem certeza disso? Tem certeza que não me quer? Que não podemos tentar?
Eu não poderia mentir para você. Lembra? Supersinceros!

Ela o viu baixar a cabeça. Silenciosamente, pediu que a perdoasse. Conseguiu lembrar de tudo que viveram até ali. Desde o dia que se conheceram, riram, brincaram, discutiram, se amaram... Mas, o envolvimento de um estava colocando um ponto final naquela brincadeira de criança, que aos poucos, foi se tornando incrivelmente deliciosa. Se lembrava com carinho dos reencontros. O tempo e a distância não foram capazes de apagar a afinidade, o respeito, tão pouco, a cumplicidade.

Não faz isso comigo, minha querida! Pelo Amor de Deus, isso não se faz...
Pensa que é fácil para mim? Mata-me a sua angústia e o seu desespero. Faz me sentir um lixo úmido e fétido por não ser capaz de corresponder a ti. Mas não posso enganar a nós, não nos faria bem... Ah, deixa o tempo passar e vai perceber que está confuso. É apenas uma carência e há de passar. Te juro!

Sentia seu estômago embrulhar. Queria acabar com aquela cena o quanto antes, voltar a dormir e esquecer essa noite. Jamais voltaria a pensar nela e, algum dia, seria compreendida. Teria seu amigo de volta e iriam rir desse episódio. Mas, por hora, tudo que via era seu melhor amigo sendo invadido por um amor não correspondido. Que ironia do destino! Ela que por tantas vezes o abrigou em seus braços consolando-o, agora o principal motivo da sua dor. Perdoa-me, amigo, diziam seus olhos. Perdoe-me por não ser digna do seu amor.

Ele não entendia. Estava ferido, desolado. Se esqueceria da amizade, do carinho, das horas e sinceridades compartilhadas. Se esqueceria daquela que por tantas vezes o fez sorrir com suas teses mirabolantes sobre o seu comportamento imaturo, porém doce e cativante. No fundo, admirava o seu orgulho e sua vontade de ser feliz e a recompensaria com a sua ausência... No fundo, não importava se ele nunca mais a teria por perto, desde que nunca mais sua querida amiga perdesse o sorriso.

terça-feira, 17 de março de 2009

Entregar-se ao desejo é dar paz ao espírito


Apenas os fracos não aproveitam a oportunidade de viver a felicidade por medo de perderem a sua paz de espírito. Como se fosse possível o espírito ter paz em dias vazios...

"Ela olhava pela janela da sua sala e se incomodava com aquela aparente serenidade. Do alto do 6º andar, via um dia claro, entre nuvens. Nem frio, tão pouco calor. Um navio atravessava lentamente um mar de águas calmas. Tudo estava exatamente como deveria estar.

“Engraçado!” - ela pensou – “Sempre desejou dias como aquele, mas não imaginava que a sensação que fosse sentir era de ...”. Não sabia explicar. Nem queria. Apesar de tudo, tinha o medo guardado dentro de si.

Então, começou a reconstituir tudo o que vivera até ali. Como, de repente, poderia ter acabado em um dia tão sem-graça? Nem o trabalho a incomodara mais. Tinha o emprego que sempre desejou, estava inebriada de tanta satisfação que nem era capaz de reconhecê-la.

Foi aí que se lembrou da última vez que sentiu a sua face arder. Seria impossível que seus pensamentos tivessem se tornado reais. Seu olfato até poderia enganá-la fazendo-a sentir aquele cheiro que tantas vezes a levaram aos céus, mas não seus olhos, jamais mentiriam para ela. Sem dúvida nenhuma, era ele.

Com um leve sorriso perguntou o que fazia ali. Mas, não ouviu nada. Só conseguia prestar atenção nos desejos que incendiavam o seu corpo e perturbavam a alma. Jamais esqueceu aquele sorriso. Dentes alinhados, meio amarelados, circundados por uma boca carnuda e vermelha. Por diversas vezes, sonhou com o contorno de seus lábios deslizando por toda a extensão do seu corpo, enquanto suas mãos acompanhavam aquela deliciosa expedição.

Tentou mais uma vez falar, queria uma voz, qualquer coisa que acabasse com aquele silêncio sufocante, e por um momento esqueceu que era ela quem não podia ouvir. Estava mais uma vez enfeitiçada. Tentava esconder o rubor do seu rosto, mas era inevitável. Sentia-se nua, invadida, possuída. Sua voz, cada vez mais rouca, apenas sussurrava algumas palavras sem sentido. Deixou que as armas caíssem e se entregou àquele olhar. Resistir só a levaria de volta à sua velha rotina vazia.

Lentamente, ela se aproximou. Deixou que seu corpo encontrassem o dele enquanto fechava a porta, e antes que pudesse se afastar, sentiu o toque das mãos dele em suas costas. Subiam vagarosamente, mas com a força exata, que a fez arrepiar, e quando finalmente alcançou a sua nuca, agarrou seus cabelos virando o seu rosto em direção ao dele.

Suas bocas se encontraram. E com a mesma velocidade, perderam-se nos abraços, quentes, fortes, ardentes... Esqueceram-se de onde estavam, apenas queriam sentir o prazer de estarem, finalmente, juntos. Caíram no sofá, sem pensar nas consequencias. Antes mesmo que pudesse perceber, ele subiu o seu vestido e apertou com força entre as suas pernas. Ela quis gritar. Sempre fora apaixonada por ele, mas tinha medo de perdê-lo caso isso viesse a se tornar realidade. E ali, enquanto sentia seus beijos e sua respiração ofegante, o ouviu dizer: “eu quero você!”. Entregou-se por inteiro e chegaram juntos ao êxtase.

Sentia que agora sua vida estava perdida, louca, não haveria como retirar o que fora dito. Estava entregue a paixão por um homem e conhecia as consequencias: só poderia esperar os dias de angustia quando ele não aparecesse, as frustrações pelas ligações não recebidas, a raiva por ter sido esquecida, as lágrimas quando outra fosse encubida de lhe dar prazer... E, ainda assim, jamais tivera sido tão amada.

Mais uma vez, respirou fundo, olhou pela janela, fechou os olhos e, lentamente, os abriu. Mas, nada aconteceu. Estava tudo ali, exatamente como deveria estar."



quarta-feira, 4 de março de 2009

Quebrando as correntes

“Que menina linda!”
Costumavam balbuciar ao vê-la passar. Era quase que um mantra que se repetia por onde quer que fosse. E engana-se quem acredita que só os homens lhe diziam isso. Sim, as mulheres também se rendiam a graciosidade do seu sorriso e com sua irritante habilidade de convencer a todos, seja por simpatia, seja por convicção. Não era teimosa. Gostava de defender seus interesses e tinha profundo apego por suas idéias. Sua fonte inesgotável de criatividade dava vida aos seus temores, tornando-a frágil, ao mesmo tempo em que vivia seus maiores desejos. Era capaz de passar horas em um conto de fadas que jamais existira, sem a menor decepção quando, por fim, percebera que estava de olhos fechados.

Cresceu dona de passos firmes, andando com a competência e elegância de quem sabe aonde quer chegar e, principalmente, como. E consegue! Não há como duvidar da sua inteligência. Notória. Orgulha-se de ter conquistado uma carreira e sabe-se que ainda pode ir mais longe. E irá!

Mas, um certo desconforto paira quando indagada sobre um namorado...

Nem sempre foi assim. Houve aqueles que tentaram mais do que alguns minutos de sua atenção. Houve aqueles que conseguiram. Contudo, não entendiam que para o encanto permanecer era preciso deixá-la ser o que sempre foi. Era preciso não sucumbir ao desejo de aprisioná-la.

Antes, o que era admiração, virou objeto de discussão. Cada dia mais, aquelas características que outrora o fizeram se apaixonar se perdiam em um monte de palavras infundadas. Dizia ela que ao se olhar no espelho, não se reconhecia. As vozes, tão rotineiras, se calaram.

E já não era sem tempo, não teve medo. Fincou no chão o salto 15cm do seu scarpin favorito e saiu, sem sequer bater a porta. Àquela altura, a insignificância era tamanha que nem valeria à pena.

Ela redescobriu o seu valor. Não tem a menor pretensão de encontrar alguém perfeito porque quando se interessa por um homem vê nele o melhor que ele pode se tornar, para ele mesmo e para a vida. E, o mais importante, não poupa esforços para que isso aconteça. Segura de si, ela não tem pressa. Retomou o seu caminho e preferiu não levar suas armaduras. Sabe que jamais precisará se tiver ao lado alguém que queira fazer o mesmo por ela.

Texto inspirado no artigoMulher Alfa e seus efeitos nos homenspublicado por Dr. Love, personagem fictício, que assina a coluna no site Papo de Homem.

 
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